Ás de Copas: significado da carta de tarot

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Uma taça que transborda
Esta carta começa pelo transbordamento e não pelo conteúdo. De uma nuvem sai uma mão que segura uma taça dourada larga, e pela sua borda derramam-se cinco jatos. Caem num tanque onde se abrem nenúfares, ou seja, o que transborda não se perde mas alimenta o que está por baixo. Sobre a taça desce uma pomba branca que leva uma hóstia redonda com uma cruz e está prestes a depositá-la dentro. No corpo da taça vê-se uma letra invertida que se lê como M ou como W conforme a direção do olhar, e essa ambiguidade corresponde a um elemento que carece de forma própria. À volta flutuam no ar vinte e cinco gotas, número que resulta de multiplicar os cinco sentidos por si próprios, de modo que o transbordamento abrange aqui a perceção inteira. A mão não aperta a taça mas segura-a aberta à altura do olhar. Nada aqui está medido nem retido, e nisso consiste o assunto da carta. O seu elemento é a água e abre o naipe de Copas; a tradição atribui-lhe a raiz do elemento água, que rege os signos de Caranguejo, Escorpião e Peixes. Nenhuma outra carta do baralho mostra um recipiente que se derrama pelo seu próprio conteúdo. Os nenúfares do tanque abrem-se precisamente ali onde cai o que transborda.
O que desce e o que transborda
Esta carta funciona com dois movimentos verticais, e ambos merecem leitura. De cima chega o que a pomba traz: uma bênção, uma inspiração ou um sentimento que ninguém fabricou. De baixo, a água que transborda regressa ao tanque, ou seja, o que se dá não fica fechado. A taça encontra-se entre ambos, e isso descreve com exatidão a posição de uma pessoa, visto que é um recipiente e não uma fonte. Os cinco jatos correspondem aos cinco sentidos, e isso significa que este sentimento deve chegar à vida tangível em vez de ficar na mente. Os nenúfares flutuam à superfície sem nela se enraizarem, e essa é uma imagem antiga do que floresce em cima tendo raízes mais fundas. A mão aberta e não fechada indica que aqui nada se impõe. O um de cada naipe constitui um começo indiviso, e no naipe da água significa abertura ao sentimento antes de este ter adotado forma alguma. A mão aberta segura a taça à altura do olhar, de modo que aqui se oferece e não se entrega. A letra do corpo da taça lê-se como M ou como W conforme a direção do olhar.

Alguma coisa se abriu por dentro
No terreno do sentimento abriu-se alguma coisa. Pode tratar-se de um encontro, de um perdão, de um afeto que regressa depois de se dar por apagado, de um desejo repentino de criar ou simplesmente do momento em que cessa o entorpecimento. O traço distintivo é que isto acontece e não se decide. Não convém analisá-lo de imediato, visto que uma análise precoce fecha o que acaba de se abrir. Permite-se que exista uns dias sem lhe exigir utilidade. Anota-se o que se sente e não o que se pensa, já que são dois níveis distintos. A quem atravessou um período seco, esta carta assinala o seu fim, e momentos assim não se anunciam duas vezes, de modo que convém anotá-lo no mesmo dia porque uma semana depois já não se reconstrói com exatidão. Anota-se o sentido e não o pensado, já que são dois registos distintos. Analisá-lo de imediato fecha o que acaba de se abrir.
Aprender a receber
Aqui uma mão estende alguma coisa, e a muitos isso resulta mais difícil do que dar. Receber exige reconhecer uma necessidade e aceitar um desequilíbrio temporário, o que resulta extremamente incómodo para quem está habituado a ser aquele que ajuda. Convém observar o que se faz perante um elogio, perante uma oferta de ajuda ou perante as palavras de alguém que exprime preocupação. Se o impulso consistir em minimizá-lo, em fazer uma piada ou em devolvê-lo de imediato, a taça foi recusada sem que se pronuncie uma única palavra. Da próxima vez aceita-se inteira, agradece-se e depois cala-se. Parece uma pequenez e muda a qualidade das relações mais depressa do que qualquer explicação, e uma taça recusada ensina além disso o meio a deixar de a oferecer. Receber exige reconhecer uma necessidade, e essa é a parte mais difícil do assunto. Aceitar a taça inteira, agradecer e depois calar constitui o exercício completo.
Primeiro o sentimento, depois a análise
Este naipe funciona na ordem inversa à habitual para a maioria. O impulso moderno consiste em compreender primeiro um sentimento e só depois se o permitir, e isso exige justificação a algo que jamais a proporciona. Primeiro nomeia-se: isto parece-se com tristeza, isto parece-se com alívio, isto parece-se com enfado, isto parece-se com saudade. Nomeá-lo reduz já de maneira notável a sua intensidade, e isso está bem documentado e resulta fácil de comprovar. Depois permanece-se com o sentimento um tempo sem pressa de o resolver, visto que um sentimento vivido passa ao passo que um posto de lado regressa. A compreensão chega quase sempre depois e chega mais depressa quando não se a exige. Um sentimento vivido passa, ao passo que um posto de lado regressa em pior momento. Nomeá-lo reduz já de maneira notável a sua intensidade.
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Dizer o que se sente
A água que transborda não constitui um acaso mas o modo de funcionar desta carta. O que se sente adquire o seu valor completo apenas ao sair, e com toda a probabilidade existe uma frase por pronunciar. Diz-se a uma pessoa que importa, fala-se da saudade, exprime-se a gratidão, conta-se que hoje se pensou nela. Essas frases custam pouco e pronunciam-se raríssimas vezes. O seu efeito supera o esperado precisamente porque quase ninguém as diz. Não se espera por uma ocasião, visto que a ocasião é o próprio pensamento. O custo dessas frases resulta ínfimo e o seu efeito supera o previsto. O mesmo vale para o que alguém diz a si próprio, já que numa taça cheia de censuras resulta difícil acrescentar o que quer que seja. Não se espera por uma ocasião, visto que a ocasião é o próprio pensamento.
O perdão pertence aqui
A reconciliação liga-se tradicionalmente a esta carta, e convém entendê-lo em sentido prático. Perdoar não significa declarar aceitável o ocorrido nem exige retomar o convívio. Significa deixar de carregar algo que cobra diariamente e que à outra parte não custa nada. Uma taça cheia de ressentimento não admite mais nada dentro, e por isso esta carta une a abertura e o perdão num mesmo lugar. Aqui entra também perdoar-se a si próprio, e a maioria acha-o bastante mais difícil, e é além disso o que mais impede avançar. A quem regressa uma e outra vez a algo antigo nos seus pensamentos, esta carta está provavelmente dedicada, e não faz falta resolver tudo mas largar o que pode largar-se. Perdoar-se a si próprio resulta bastante mais difícil e bloqueia bastante mais. Uma taça cheia de ressentimento não admite mais nada dentro.
Cuidar da fonte
Resta um lembrete sobre a continuidade. Atrás de uma taça que transborda deve haver algo que a encha, e quem dá sem repor seca depressa. Convém olhar com atenção o que realmente enche essa pessoa, já que a maioria é capaz de enumerar o que a esvazia e emudece perante a pergunta inversa. O sono, alguém em concreto, a música, a água, o silêncio ou um trabalho que de facto agrada são respostas possíveis. Colocam-se na semana em curso e não numa lista de espera, visto que o dia completamente livre não chega. Convém notar que a pomba desce de fora, ou seja, não faz falta produzir tudo por conta própria. O que enche coloca-se na semana em curso e não numa lista de espera. O dia completamente livre em que se costuma adiar nunca chega.






