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Cartas invertidas no tarot

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A questão que divide os praticantes

Ler ou não ler cartas invertidas é uma das poucas divergências reais entre escolas, e ambas as posições têm defensores experientes. Uma corrente atribui a cada inversão um sentido alterado, o que duplica o vocabulário disponível e permite distinções finas. Outra corrente não usa inversões e obtém a nuance através do contexto, argumentando que cada carta já contém a sua própria sombra e que a posição física acrescenta uma variável arbitrária. Nenhuma das posições é mais correta, e o que importa é a coerência, porque alternar entre métodos torna impossível comparar leituras ao longo do tempo. Convém decidir antes de começar uma série de leituras e não a meio, porque a mudança retroativa invalida o registo acumulado. Uma nota inicial no caderno resolve o problema para sempre. A convenção deixa então de precisar de ser recordada em cada sessão. Muitos abandonos desta prática começam por pequenas incoerências deste tipo. A pessoa deixa de confiar no arquivo e, pouco depois, deixa de o manter.

As três leituras possíveis de uma inversão

Quem opta por usar inversões encontra três interpretações em circulação e convém escolher uma. A primeira lê a carta invertida como o oposto do seu sentido direito, o que é simples e frequentemente demasiado grosseiro. A segunda lê-a como bloqueio ou atraso da energia da carta, formulação que funciona bem e mantém o significado base. A terceira lê-a como a mesma energia voltada para dentro, ou seja, vivida internamente em vez de manifestada, e é a mais subtil das três. Convém adotar uma e mantê-la, porque misturá-las conforme conveniência produz interpretações que se ajustam sempre e por isso não informam. Uma interpretação que nunca pode estar errada também nunca pode estar certa, e esse é o critério que separa método de improviso. Este princípio aplica-se muito para além da questão das inversões. Serve para avaliar qualquer método que prometa explicar todos os resultados. A falsificabilidade é um critério útil também fora das ciências.

O argumento de quem não as usa

A posição contrária tem fundamentos que merecem consideração. Uma carta direita já contém dificuldade quando o contexto assim o indica, e a Torre não precisa de estar invertida para descrever rutura. Acrescentar inversões duplica a matéria a memorizar sem acrescentar informação proporcional. Além disso, a orientação física depende de como o baralho foi embaralhado, e muitos métodos de mistura produzem pouquíssimas inversões enquanto outros produzem quase metade, o que torna a frequência das cartas invertidas dependente do gesto e não da questão. Este argumento é o mais forte do lado de quem dispensa a prática. Um teste simples demonstra-o: embaralhar dez vezes por transferência e contar as inversões costuma dar zero, enquanto o mesmo baralho misturado sobre a mesa produz perto de metade. A diferença vem inteiramente do gesto e não da pergunta feita. Quem ignora este ponto atribui à tiragem uma informação que veio das mãos. O erro é discreto e distorce sessões inteiras.

Uma posição intermédia

Existe uma via que muitos leitores experientes adotam sem a nomear. Não se usam inversões de forma sistemática, e presta-se atenção quando uma carta sai invertida de modo notório, por exemplo quando é a única de toda a tiragem. Nesse caso trata-se como ênfase e não como significado alterado. Esta abordagem evita a duplicação de matéria e aproveita o que a inversão ocasional pode assinalar. Convém, ainda assim, registar no caderno qual a convenção adotada em cada leitura, porque sem esse registo as sessões deixam de ser comparáveis entre si ao fim de alguns meses. Basta uma abreviatura no canto da página para essa nota ficar feita. Sem ela, uma releitura ao fim de um ano torna-se pouco fiável. O registo é aqui tão importante como a própria escolha. Duas convenções alternadas produzem um arquivo inutilizável.

Quando começar a usá-las

Para quem aprende, a recomendação é clara e quase consensual. Convém deixar as inversões de fora durante o primeiro ano inteiro, porque setenta e oito imagens já ocupam tempo suficiente e acrescentar uma variável antes de a base estar firme produz confusão que se confunde com falta de aptidão. Depois de um ano de prática regular com registo, a decisão torna-se fácil, já que existirão critérios reais para avaliar se a inversão acrescenta ou apenas complica. Muitos leitores concluem nessa altura que não precisam delas, e outros adotam-nas com proveito. Nenhum dos dois grupos lê pior por causa dessa escolha, o que confirma que a variável não é determinante. O que distingue os bons leitores está noutro lugar por completo. Está na formulação da pergunta e na capacidade de relacionar cartas. Essas duas competências pesam mais do que qualquer convenção adotada. Um leitor com boa pergunta e sem inversões supera sempre um leitor com má pergunta e sistema completo.

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Como embaralhar se as usar

Quem decide trabalhar com inversões precisa de um método de mistura que as produza de forma consistente. O embaralhamento por transferência de mão a mão praticamente não inverte cartas, e por isso é inadequado para esta prática. O método de espalhar as cartas sobre a mesa e movê-las com as palmas produz inversões em proporção razoável. Outra solução consiste em dividir o baralho em dois montes e rodar um deles antes de reunir. O importante é usar sempre o mesmo procedimento, porque a proporção de cartas invertidas deve depender do método e manter-se estável ao longo das sessões. Uma proporção que varia sem razão indica que o gesto está a introduzir ruído na leitura. Corrigir o método de mistura resolve isso sem alterar nada da interpretação. Convém verificar essa proporção de tempos a tempos. Contar as inversões em cinco tiragens seguidas dá uma estimativa suficiente. Se o número oscilar muito entre sessões, o problema está na mistura e não na leitura.

O erro mais comum

Existe um hábito que esvazia esta prática e aparece com frequência. Consiste em ler a carta invertida como negativa e a carta direita como positiva, transformando a orientação num sistema binário de bom e mau. Essa leitura reduz o baralho a metade da sua riqueza e produz sessões em que o número de inversões determina o tom da resposta. Uma carta difícil na posição direita continua difícil, e uma carta favorável invertida não se torna automaticamente ameaçadora. Convém manter a inversão como modificador de intensidade ou de direção e nunca como interruptor de valor. Um Dez de Espadas direito continua a descrever um fim, e um Sol invertido não deixa de descrever clareza. A inversão altera o modo e não a natureza da carta. Tratá-la como interruptor reduz o baralho a metade da sua riqueza. O tom da resposta passa então a depender do número de inversões e não da questão.

O que fica desta discussão

Esta questão resume-se numa observação prática. A qualidade de uma leitura depende muito mais da pergunta formulada, da estrutura escolhida e da capacidade de relacionar cartas do que da decisão sobre inversões. Leitores excelentes usam-nas e leitores igualmente excelentes dispensam-nas, o que indica que a variável não é decisiva. Por isso convém não gastar tempo excessivo com esta escolha, adotar uma convenção, registá-la e continuar a praticar. A coerência ao longo do tempo vale mais do que ter escolhido a opção teoricamente superior, e essa conclusão aplica-se a quase todas as divergências desta prática. Tempo gasto a escolher entre escolas é quase sempre tempo retirado à prática que faria a diferença. A pergunta bem formulada continua a valer mais do que qualquer convenção adotada.

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