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Como ler cartas de tarot

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Antes de qualquer significado

O erro mais comum de quem começa consiste em correr ao manual assim que uma carta aparece. O caminho que forma leitores é o inverso, porque a memória de um significado impede de ver a imagem. Convém olhar primeiro a carta durante um minuto inteiro e enunciar em voz alta o que lá está: quantas figuras, para onde olham, que cores dominam, o que está em primeiro plano e o que ficou ao fundo. Só depois se procura o significado escrito, e a comparação entre o que foi observado e o que o manual diz constitui o exercício central desta prática. Quem faz isto durante alguns meses passa a ler cartas que nunca decorou, e quem começa pelo manual continua dependente dele durante anos. A diferença entre os dois percursos aparece por volta do sexto mês. Quem observou antes de ler reconhece cartas que nunca estudou. O manual passa então a servir de confirmação e não de muleta.

Uma carta é um conjunto, não uma palavra

Cada carta reúne várias camadas que apontam para o mesmo lugar: a cena desenhada, o número, o naipe, as cores e os símbolos herdados. O número situa a carta no ciclo do naipe, pois os ases abrem, os cincos perturbam, os dez fecham. O naipe indica o terreno da questão, ou seja, se ela pertence à vontade, ao sentimento, ao pensamento ou à matéria. As figuras da corte descrevem posturas e não apenas pessoas. Quando essas camadas se contradizem na leitura feita, é sinal de que uma delas foi mal lida, e revê-las costuma resolver a dúvida sem recurso a qualquer manual. As cores funcionam como camada rápida: o amarelo aponta consciência, o azul aponta interioridade, o vermelho aponta ação. Os números repetidos numa tiragem apontam para a fase em que a questão se encontra. Os ases abrem, os cincos perturbam e os dez fecham um ciclo.

O contexto altera a carta

Nenhuma carta possui significado fixo fora da posição que ocupa e da pergunta feita. O quatro de ouros ao lado do cinco de ouros fala de medo de perder; ao lado do dez de ouros fala de património que se consolida. A mesma carta responde de maneira diferente a uma questão profissional e a uma questão afetiva. Por isso a leitura correta parte da tiragem inteira e não da soma de significados individuais. Um método simples ajuda: observam-se primeiro os padrões gerais, ou seja, que naipe domina, se há muitos Arcanos Maiores, se aparecem números repetidos. Só depois se lê carta a carta, e essa ordem evita a lista de significados desligados que caracteriza as leituras iniciais. Muitos Arcanos Maiores numa tiragem indicam que a questão excede o controlo de quem pergunta. Uma tiragem só com cartas menores costuma tratar de assuntos práticos e resolúveis. Esse padrão geral vale mais do que qualquer significado isolado.

Cartas invertidas

A leitura de cartas invertidas divide os praticantes e vale a pena conhecer as posições antes de escolher. Uma corrente atribui a cada inversão um sentido oposto ou bloqueado, o que duplica o vocabulário do baralho. Outra corrente não usa inversões e obtém a nuance através do contexto, argumentando que cada carta já contém a sua própria sombra. Nenhuma das posições é mais correta, e o que importa é a coerência, porque alternar entre métodos torna as leituras impossíveis de comparar. Para quem começa, convém deixar as inversões de fora durante os primeiros meses, já que setenta e oito imagens bastam para ocupar bastante tempo antes de acrescentar mais uma variável. Depois de um ano com o baralho, a decisão sobre inversões torna-se muito mais fácil de tomar. O que não funciona é usar inversões numa leitura e ignorá-las na seguinte. A incoerência entre métodos torna as leituras impossíveis de comparar.

Quando a tiragem parece não fazer sentido

Acontece com frequência que as cartas saídas não parecem responder à pergunta. Antes de embaralhar de novo, convém verificar três coisas. A primeira é a pergunta, porque uma questão vaga produz uma resposta vaga e uma questão mal dirigida devolve material sobre outro assunto. A segunda é a resistência, já que por vezes a resposta é clara e desagradável, e a mente rejeita-a apresentando-a como incompreensível. A terceira é a literalidade, pois insistir num significado decorado impede de ver o que a imagem mostra. Repetir a tiragem sobre a mesma questão no mesmo dia raramente ajuda e habitua a procurar a resposta que agrada. Quando a mesma questão volta noutro dia, convém rever primeiro o registo da tiragem anterior. A repetição de uma carta em tiragens sucessivas costuma ser o dado mais importante. Uma carta que volta três vezes deixou de ser ruído.

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Registar as leituras

O hábito que mais acelera a aprendizagem custa cinco minutos e quase ninguém o mantém. Anota-se a data, a pergunta, as cartas saídas e a interpretação feita no momento, sem corrigir nada mais tarde. Passados alguns meses, relê-se o caderno com o que entretanto aconteceu, e essa comparação mostra quais leituras acertaram, quais falharam e sobretudo que erros se repetem. A maior parte das pessoas descobre um padrão pessoal: uma carta que é sistematicamente lida de forma pessimista, um naipe que se interpreta mal, uma tendência a ver na tiragem aquilo que se deseja. Nenhum manual revela isso, e apenas o registo próprio o faz. O caderno serve também para separar o que foi lido do que foi acrescentado por expectativa. Essa separação é quase impossível de fazer no momento e torna-se evidente meses depois. A maior parte das pessoas descobre assim um padrão pessoal de leitura.

Ler para outras pessoas

Ler para terceiros levanta questões que a leitura pessoal não coloca. A primeira é a linguagem, porque afirmações categóricas sobre o futuro são tanto imprecisas como pesadas para quem as ouve. Formulações que descrevem tendências e deixam a decisão à pessoa funcionam melhor e são mais honestas. A segunda é o limite: não se emitem diagnósticos médicos, pareceres jurídicos nem conselhos financeiros, e quando o tema aponta para aí encaminha-se para quem tem competência. A terceira é o cuidado com temas sensíveis, pois uma frase dita numa leitura pode ficar anos na cabeça de quem a recebeu. Convém perguntar o que a pessoa procura antes de começar, já que muitas vezes ela quer ser ouvida e não prevista. Essa pergunta inicial poupa mal-entendidos e muda por completo o tom da sessão. Convém também combinar de início quanto tempo dura a leitura e o que fica fora dela. Frases categóricas sobre o futuro são imprecisas e pesadas para quem as ouve.

Quanto tempo leva

A pergunta sobre a duração da aprendizagem tem uma resposta desagradável e honesta. As bases assimilam-se em algumas semanas, a fluência exige meses de prática regular e a leitura verdadeiramente boa depende de anos. Isso não difere de qualquer outro ofício e o que acelera o processo é a regularidade, pois quinze minutos diários valem mais do que uma tarde inteira ao domingo. O que atrasa é o salto entre baralhos e métodos, porque cada mudança apaga a familiaridade acumulada. Convém aceitar que as primeiras leituras serão rígidas e literais, já que essa fase é obrigatória e passa. A fluidez aparece quando as imagens deixam de exigir tradução consciente. Nessa altura, a leitura passa a parecer conversa e não decifração. Até lá, a rigidez faz parte do percurso e não indica falta de talento. O que atrasa realmente é o salto constante entre baralhos e métodos.

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