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O Enforcado: significado da carta de tarot

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Mensagens:


  • mudança de perspetiva

  • largar o aperto

  • paciência

  • paragem

  • aceitação

  • outro ângulo

  • suspensão

  • compreensão

  • confiança

  • passagem

  • renúncia

  • consentimento

  • maturidade

  • reformulação

  • espera

  • clareza

  • consciência

  • desaceleração

  • calma

  • viragem

  • entendimento

  • tempo intermédio

  • trabalho interior

  • reorientação

  • abertura

Uma imagem que dá vontade de virar

Quase toda a gente que vê esta carta pela primeira vez sente o impulso de a pegar e a pôr direita, e esse mesmo reflexo é a interpretação. Um homem pende pelo tornozelo direito de uma trave apoiada em duas árvores verdes e vivas. A perna esquerda está dobrada atrás da direita e forma o algarismo quatro, número da estabilidade e da estrutura. Os braços vão às costas com os cotovelos abertos para fora, o que produz um triângulo. Leva calças vermelhas, camisa azul e sapatos amarelos, e a roupa está em ordem e não rasgada. À volta da cabeça há um halo intenso, e essa luz procede dele próprio e não do céu. Sustenta-o uma única corda, e as mãos estão tão livres que ele próprio poderia desatar-se. No rosto não há vestígio de pânico mas uma calma estranhamente desperta, e é precisamente essa discordância que retém o olhar; é além disso a única carta do baralho onde a figura principal aparece invertida.

Ler tudo duas vezes

Esta carta exige olhar cada elemento em duas direções. Com o olhar corrente vê-se um homem pendurado da árvore sem remédio. Ao inverter a imagem aparece uma figura ereta com a perna levantada, como numa dança. A corda parece uma amarra até ao instante em que se nota que apenas prende o tornozelo, ao passo que as mãos e a cabeça ficam completamente livres, e isso converte a situação numa postura e não numa prisão. O algarismo quatro formado pelas pernas significa ordem e estabilidade e aparece justamente no momento em que tudo o resto está invertido. O triângulo dos braços aponta para baixo, o que fala de uma compreensão que chega de baixo. A trave apoia-se em árvores verdes e vivas, e por isso esta postura cresce em vez de murchar; as árvores ligam-se na tradição ao freixo das lendas do norte, de modo que o pendurar-se se lê como prova em troca de conhecimento e não como castigo. A luz à volta da cabeça constitui o ponto principal, já que mostra que naquela imobilidade aconteceu realmente alguma coisa.

Quando a paragem não se escolhe

A maioria encontra esta carta numa situação que não escolheu. A decisão está em mãos alheias. O processo arrasta-se. Uma doença derruba a pessoa. Um projeto detém-se embora tudo tenha sido bem feito. O que irrita antes de mais é que o remédio habitual contra a inquietação resulta inservível, visto que o problema não se resolve acrescentando ações. O primeiro impulso será cobrir a imobilidade com atividade, e isso costuma prolongá-la; a atividade nesse momento gasta as forças que farão falta quando a situação finalmente se mover. O Enforcado propõe outra coisa: deixar de lutar contra a situação e reconhecê-la tal como é. Não se trata de uma capitulação, já que a capitulação significa indiferença ao passo que a aceitação significa deixar de empurrar contra um muro. A tensão costuma cair no mesmo instante em que a espera deixa de se considerar um fracasso pessoal, e a comprovação é simples: se um esforço adicional mudaria alguma coisa, e se a resposta for negativa, esse esforço deve dirigir-se a outro lado.

Ver o mesmo de outro lado

A mudança de ponto de vista desta carta está pensada de maneira literal e pode aplicar-se hoje mesmo. Quando um assunto não avança durante semanas, a causa raramente é a falta de esforço e com mais frequência uma pergunta mal colocada. Enquanto a pergunta soar como o modo de convencer uma pessoa determinada, a busca continuará a girar à volta de argumentos mais afortunados. A pergunta pelas razões da sua hesitação, em contrapartida, muda à vista o contorno inteiro do assunto. Convém experimentar uma inversão deliberada: o que aconteceria se o contrário fosse verdade, o que veria alguém de fora que desconhece os antecedentes, e o que aconteceria se esta demora fosse informação e não obstáculo. Perguntas assim custam uns minutos e não exigem um ânimo especial mas apenas a disposição para pôr de lado por um momento o próprio relato sobre a situação, e anotadas no papel funcionam bastante melhor, visto que na cabeça a versão habitual se restabelece quase de imediato.

Renunciar conscientemente a alguma coisa

O Enforcado transmite-se como carta do sacrifício voluntário, e esta parte costuma saltar-se. Algumas coisas não se conseguem ao mesmo tempo, ou seja, avançar custará alguma coisa. Começar estudos custa rendimentos e serões. Ter um filho custa liberdade de movimento. A franqueza com uma pessoa custa a versão cómoda de si próprio. O decisivo acaba por ser pagar esse preço de maneira consciente, visto que um sacrifício inconsciente se transforma em censura dirigida aos próximos. Convém notar que a sua corda está atada com cuidado e que ele poderia libertar-se, ou seja, escolheu-o. Quem sabe exatamente a que renuncia e em troca de quê suporta bastante mais do que supõe. Merece rever-se também se uma renúncia antiga ainda serve algum propósito ou se se transformou em hábito, já que uma renúncia que perdeu o seu propósito continua a cobrar e já não compra nada.

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A parte que não está nas mãos

Boa parte do desconforto procede aqui da inatividade das ferramentas habituais. A aplicação, o engenho e a teimosia levaram essa pessoa até este ponto, e nesta situação não movem quase nada, visto que a decisão se encontra noutro lugar. Atinge com especial força aqueles que estão habituados a obter resultados por puro esforço, já que é provável que meçam a partir daí o seu próprio valor. O Enforcado retira precisamente essa alavanca, e ao princípio parece uma perda de sentido. Na realidade apenas assinala o que sempre foi verdade: o momento, as decisões alheias e as circunstâncias nuas formaram essa vida tanto quanto o trabalho. Quem suporta isto sem se sentir diminuído adquire uma solidez útil muito depois de este troço terminar, e essa solidez distingue aqueles que atravessam as demoras com calma daqueles para quem toda demora se transforma em ofensa.

O halo surge do silêncio

A luz à volta da sua cabeça não é um adorno mas uma consequência. A compreensão raramente chega sob pressão, visto que uma mente ocupada repete quase sempre aquilo em que já pensa. O diferente só consegue falar quando as respostas habituais ficam fora de serviço. Precisamente por isso os pensamentos mais úteis aparecem durante uma doença, nas viagens longas ou nesses períodos em que de qualquer modo nada se move. Forçá-lo resulta impossível, embora seja possível deixar espaço sem encher cada interstício com distração. Num período assim vem a propósito um caderno, já que em geral os mesmos temas emergem duas ou três vezes, e são eles as perguntas verdadeiras que no tempo normal desaparecem por trás da agenda do dia; basta reler as anotações ao fim de um mês para que os temas repetidos apareçam sozinhos.

Como se vê depois este período

A natureza deste período quase sempre muda quando se olha de longe. De dentro parece tempo perdido, um intervalo entre dois capítulos que se quereria saltar. Perguntar a quem o viveu produz anos depois outra descrição: é justamente esse ponto que assinalam como o lugar onde a direção mudou. A razão é que aqui se preparam decisões que então resultava impossível formular. A quem se encontra a meio custa aceitar esse consolo, e não é preciso fingir o contrário. Resulta mais útil fazer algo pequeno e tangível: anotar semana a semana o que se nota, já que essas notas parecem agora completamente correntes e resultarão ser o mais valioso que se extrair deste tempo. O Enforcado não afirma que toda demora tenha um sentido oculto, visto que alguns obstáculos são simplesmente incómodos, e a diferença entre uma pausa com sentido e um estorvo comum só se esclarece em retrospetiva.

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