O Eremita: significado da carta de tarot

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Ao princípio vê-se apenas o fundo noturno
O olhar cai primeiro no vazio do fundo: não há sol, nem aldeia, nem caminho visível, mas um céu escuro sobre um cume nevado. Nesse vazio há uma figura curvada, envolta numa capa cinzenta comprida, sem companhia e sem bagagem, e o cinzento é a cor de quem não atrai a atenção. Na mão direita erguida leva uma lanterna, e dentro dela arde uma estrela de seis pontas, figura de dois triângulos sobrepostos que assinala o cruzamento do mundo interior com o exterior. A mão esquerda apoia-se num bastão comprido que percorreu evidentemente muitos caminhos. A cabeça está algo inclinada e os olhos semicerrados: o olhar aponta para dentro e não para os lados. A neve sob os seus pés mostra a que altura subiu e que frio faz ali. E ainda assim não parece perdido mas recolhido, como se aquele lugar desabitado fosse a meta, e esta é a única carta dos arcanos maiores onde a fonte de luz está na mão da figura e não no céu.
Uma lanterna que mostra pouco
Convém observar quanto essa lanterna realmente mostra, já que aí se encontra a mensagem mais funda da carta. Ilumina o chão diante dos pés e nada mais, e nunca descobre o vale inteiro. A escuridão que a rodeia não significa perigo mas silêncio, visto que ali não há sons, nem tarefas, nem opiniões a competir pela atenção. A montanha proporciona a distância necessária para ver padrões que permanecem invisíveis no vale. A neve significa ao mesmo tempo clareza e frio, já que a compreensão raramente resulta agradável no momento em que chega, e o cume nevado repete além disso as montanhas do fundo do Louco, o que liga o fim da preparação ao seu começo. O bastão comprido significa a experiência em que ele se apoia, uma experiência arrancada e não lida. O mais importante é que ergue a lanterna em vez de a baixar: essa luz está destinada também a outra pessoa. A estrela de seis pontas do interior é composta por dois triângulos opostos e assinala por isso um encontro entre duas ordens e não uma só.

Escolher o retiro antes que se imponha
A solidão acontece a uma pessoa, ao passo que o retiro é uma decisão, e essa diferença muda a experiência inteira. É possível sentir-se só numa sala cheia, o que demonstra que o assunto nunca residiu na quantidade de gente em volta. O Eremita aparece em geral depois de períodos longos cheios de conversas, exigências e opiniões alheias, quando escutar a própria voz se torna difícil. Costuma reconhecer-se por um cansaço estranho que não desaparece nem depois de um fim de semana vazio, e o descanso não ajuda porque a exaustão não procede da carga mas da presença contínua de vozes alheias. Quando essa descrição resulta familiar, convém tomar o retiro de maneira consciente em vez de esperar por cair nele. Fixa-se-lhe uma data de termo, visto que a reflexão sem regresso se transforma em evasão. Comunica-se aos próximos o que se passa para que o silêncio não seja tomado como algo pessoal. Costuma bastar uma única frase, e poupa explicações que depois haveria de dar de qualquer modo.
Primeiro a resposta própria
Convém reparar que o Eremita não consulta ninguém, e isso está feito de propósito. Não coloca a mesma pergunta muitas vezes mas responde-lhe uma só vez. Os conselhos resultam úteis, e a sua abundância apaga o olhar próprio até não restar nada além de pesar argumentos alheios. Quem pergunta tempo suficiente encontra sempre alguém que lhe dirá o que deseja ouvir. Convém lembrar que em todo conselho está contida a biografia de quem o dá e não a biografia de quem pergunta. Essa ordem merece uma prova: anotar primeiro a resposta própria e depois perguntar aos outros. Então vê-se se a conversa afiou o olhar próprio ou se simplesmente o substituiu, e a comprovação leva uns minutos e protege de uma situação em que a decisão se toma com voz alheia. Perguntar é útil; perguntar até encontrar a resposta desejada, não.
Basta o passo seguinte
Esperar por ver o caminho completo antes de se mover significa permanecer parado durante muitíssimo tempo. O futuro não se ilumina a pedido, e o Eremita avança apesar disso, visto que lhe bastam uns metros de visibilidade. O plano não resulta inútil, embora passada certa distância perca valor, já que assenta em suposições que ninguém comprovou ainda. A maior parte do conhecimento necessário aparece apenas depois dos primeiros passos, visto que o movimento produz dados que nenhum trabalho de gabinete proporciona. Separar a direção do plano aligeira o assunto: à direção permite-se continuar geral, ao passo que a única coisa que deve ser precisa é o passo seguinte. Perante um impasse ajuda a pergunta pela ação mais pequena possível hoje, tão pequena que o medo se detenha diante dela, e o seu valor não está no resultado mas em transferir a situação do pensamento para a experiência. O plano mantém-se geral e apenas o passo imediato se torna preciso.
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Uma lentidão deliberada
Nesta carta não há a menor velocidade. Não corre, mas sobe passo a passo apoiando-se no bastão. Numa montanha isso resulta evidente, visto que subir depressa não faz chegar antes mas impede chegar. A compreensão exige repetição com intervalos, já que as ligações aparecem apenas quando o assunto perde a sua novidade. O captado depressa costuma partir à mesma velocidade. O luto e a recuperação funcionam segundo o mesmo calendário, não sujeito a discussão. Aqui entra também a leitura lenta, já que vinte páginas realmente compreendidas pesam mais do que duzentas folheadas. Apressar o Eremita significa perder exatamente aquilo por que esse tempo foi gasto, e por isso um retiro curto feito sem pressa rende mais do que um longo feito com horário. A compreensão chega por repetição com intervalos e não por acumulação.
Erguer a luz para outros
Essa mão estendida distingue o Eremita de quem simplesmente se esconde do mundo. Quem percorreu um caminho difícil é capaz de assinalar a outro os lugares que suportam o peso. Assim as pessoas transformam-se em ponto de referência para outras, quase sempre sem pronunciar discurso algum. Convém reparar que ele não leva ninguém às costas nem puxa ninguém: ergue a luz e continua a caminhar ele próprio. Quem percorre o caminho em lugar de outro tira-lhe exatamente a experiência pela qual esse caminho existe. O momento importa também, já que o relato ajuda depois da passagem e não a meio dela, e funciona bastante melhor oferecido do que imposto. Assinalar um lugar que suporta o peso resulta possível; caminhar em lugar de outro, não. A sua lanterna continua pequena e não se transforma num holofote, ou seja, ninguém é capaz de iluminar a outro o caminho inteiro, e daí decorre o limite da responsabilidade.
O número nove e a descida da montanha
O número IX no tarot é o número que precede imediatamente a conclusão, ou seja, a última etapa de preparação num ciclo que se fechará no dez. Por isso o Eremita não representa uma chegada mas a calma anterior à chegada, e depois vem a Roda da Fortuna e põe tudo em movimento outra vez através de uma intervenção externa. Todo retiro tem um regresso, e dessa segunda metade fala-se bastante menos. A subida acaba por ser a parte fácil, e a descida é difícil, visto que a calma se torna cómoda e a vida deixada para trás continuou sem o seu dono. Precisamente por isso a carta lhe dá um bastão e não uma poltrona: é alguém que caminha e não alguém que se instalou. O que se traz de volta raramente resulta ser uma resposta brilhante; com mais frequência é uma mudança naquilo que a pessoa continua disposta a suportar. Essa mudança acaba por ser a mais duradoura, visto que não depende de as circunstâncias a confirmarem.






