O Hierofante: significado da carta de tarot

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A cena vista de baixo
A entrada mais simples nesta carta passa pelos dois ajoelhados da orla inferior. Nas suas túnicas aparecem rosas e lírios, símbolos do desejo e do pensamento claro, ou seja, as duas forças que todo o aprendiz deve pôr em ordem. Olham para cima, para o homem sentado numa elevação entre duas colunas cinzentas. Leva uma tiara de três níveis e na mão esquerda um báculo com três travessas, e tudo isso remete para três planos ligados entre si: o corpo, a mente e o espírito. A mão direita está erguida em sinal de bênção, dois dedos acima e dois abaixo, o que indica uma ligação que funciona em ambos os sentidos. Entre ele e os discípulos jazem no chão duas chaves cruzadas, visíveis para todos e retidas por ninguém. O manto vermelho brilha sobre a vestidura branca, e cada elemento da cena está colocado com intenção. Ninguém tem pressa aqui, e nada acontece pela primeira vez. Tudo nesta cena já se repetiu antes, e a repetibilidade constitui o seu conteúdo e não o seu defeito.
As chaves estão no chão
As duas chaves cruzadas do chão são o pormenor que abre esta carta. Estão colocadas ao alcance da mão, o que significa que a compreensão mais profunda está realmente disponível e que o acesso a ela exige baixar-se. Ninguém as entregará a ninguém e ninguém as tirará a ninguém. As colunas permanecem abertas e entre elas não há véu, já que aquilo que a Sacerdotisa guardava para si aqui se pronuncia. O número dois atravessa a carta inteira: nas colunas, no par ajoelhado, nas chaves, e em toda a parte assinala a parte recetora, visto que o ensino não existe sem alguém que o receba. O número três aparece duas vezes, na tiara e nas travessas, e sustenta esses mesmos planos sobrepostos. As chaves cruzadas associam-se na tradição ao saber terreno e ao celeste, e o seu cruzamento indica que nenhum dos dois basta sozinho. Mas o que mais diz é que o Hierofante está sentado dentro de um edifício: este lugar foi construído por pessoas e mantido por elas durante muito tempo, e ao contrário dos restantes arcanos maiores aqui não há céu nem paisagem.

Não é preciso inventar tudo de novo
Esta carta carrega uma ideia pouco querida e extremamente útil. Antes de qualquer pessoa, outras já se fizeram as mesmas perguntas, erraram, recomeçaram e anotaram o que aprenderam. Aproveitar isso não constitui uma fraqueza mas tempo poupado. Um curso, um bom livro, um método testado ou um colega com experiência poupam quase sempre muitos anos de rodeios desnecessários. O que costuma estorvar é o desejo de fazer algo completamente próprio, embora os fundamentos de qualquer ofício raramente sejam originais nem tenham de o ser. O trabalho torna-se peculiar mais tarde, quando a técnica assentou e se sabe exatamente daquilo de que se está a afastar. Começar sem regras reproduz erros antigos e deixa-os sem aviso. Resulta mais proveitoso procurar quem vai dois passos à frente do que o maior nome do campo, já que esse ainda se lembra de como é o princípio e as suas explicações costumam ser mais precisas. Não teve tempo de esquecer que lugares produzem dificuldade.
O trabalho do ritual
De fora os rituais parecem vazios, e o Hierofante sabe que cumprem uma tarefa muito precisa: dispensam a necessidade de tomar uma decisão. Uma ocupação matinal estável, uma reunião semanal, uma festa que não se falha, uma mesma frase pronunciada antes de uma tarefa difícil: essas formas sustentam o seu dono precisamente quando falta a motivação. O corpo aprende as rotas e muda de estado mais depressa assim que as reconhece. Os rituais assinalam além disso as passagens, já que um nascimento, uma despedida ou um luto precisam de uma forma para se tornarem tratáveis. As formas comuns mantêm os grupos unidos, visto que todos fazem o mesmo sem o combinar de cada vez. Os pequenos rituais privados cumprem a mesma tarefa e não exigem explicações. O ritual só se esvazia quando já ninguém se lembra da sua razão, e precisamente então é permitido mudá-lo; até esse momento conservam-no mesmo aqueles que não partilham o seu sentido. A forma continua a cumprir o seu trabalho ainda que o sentido se tenha tornado invisível.
Procurar a comunidade adequada
Em volta do Hierofante há sempre uma comunidade, já que ele nunca aparece sozinho. A pertença dá segurança, certeza e um ponto de referência, e em troca exige um compromisso. Cede-se uma parte da liberdade, e isso é um preço e não um erro. Em troca a comunidade sustenta o seu membro nas épocas em que as próprias forças não bastam, visto que os outros continuam quando ele não pode. Muitas coisas resultam mais simples em conjunto, e algumas só acontecem assim. A questão, portanto, não é aderir ou não, mas a que comunidade exatamente, já que com o tempo ela molda os critérios dos seus participantes. Convém olhar se ali a objeção é possível ou se apenas se aplaude a concordância, e a resposta a essa pergunta determina se a pertença sustentará a pessoa ou a irá estreitando. A comprovação faz-se observando o que acontece a quem discorda em voz alta.
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Rever as regras herdadas
A tradição resulta útil, e tem outra face que o Hierofante não esconde. O que foi completamente razoável pode perder a sua razão sem que ninguém o note. As regras vivem mais do que os seus motivos, visto que segui-las sai mais barato do que revê-las. Quando se diz que sempre foi assim, isso é uma descrição e não um argumento. Convém separar a forma da finalidade, já que a finalidade costuma continuar válida enquanto o caminho até ela envelhece mal. Quem rejeita de uma vez tudo o que é herdado fica tão pouco livre quanto quem o aceita inteiro, visto que ambos saltaram a revisão. As chaves estão no chão e não na sua mão por uma razão de peso: no fim a pessoa recolhe-as ou deixa-as. A maturidade consiste em conservar o que funciona e deixar o resto sem o transformar numa questão de princípio. A prova é simples: verificar se uma regra se separa da pessoa que a introduziu.
Transmitir o que se aprendeu
Esta carta assinala muitas vezes uma pessoa real do meio: um mentor, uma mestra ou alguém que partilha a sua experiência no momento certo. Em igual medida assinala a própria pessoa nesse papel. Explicar algo permite compreendê-lo melhor, e por isso a transmissão não é apenas um favor. Descobre além disso as lacunas, já que aquilo que não se consegue dizer com simplicidade quase sempre ainda não está assimilado. Não se exige o título de perito, visto que para ajudar basta ir um passo à frente. Contudo a transmissão traz consigo uma obrigação de exatidão, já que uma frase errada continua a viajar dentro de outras cabeças. Convém distinguir com clareza o conhecido, o suposto e o desconhecido, e essa distinção acaba por ser a melhor lição possível, visto que mostra a estrutura do próprio conhecimento. Dizer que algo se desconhece ensina mais do que uma resposta segura.
O número cinco e o seu lugar no baralho
O número V vem imediatamente depois do Imperador: depois da autoridade externa chega a autoridade da instituição e do espírito. Nos arcanos menores os cincos carregam turbulência, ao passo que o cinco dos arcanos maiores representa a ordem, e essa posição aparentemente invertida decorre da tarefa distinta das duas séries. O Hierofante é além disso colocado no baralho como correspondência masculina da Sacerdotisa: ela guarda o que não se pronuncia, ele ensina o que é possível pronunciar. Imediatamente a seguir vêm os Amantes e exigem pela primeira vez uma escolha pessoal, ou seja, a vez de escolher os próprios valores chega depois dos valores herdados. Essa ordem não constitui uma censura mas um mapa, visto que a capacidade de escolher pressupõe que antes houve algo herdado; quem nada tem herdado não escolhe com mais liberdade mas mais ao acaso. A sequência inteira assinala assim uma direção e não uma hierarquia.






