Os Amantes: significado da carta de tarot

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Luz sem uma única sombra
Nesta carta não há uma única sombra, e isso é o primeiro a notar. Na parte superior aparece um sol grande, e diante dele um anjo de asas vermelhas abre os braços dentro de um círculo de luz, figura ligada tradicionalmente à cura e à pureza do elemento ar. Sob essa luz estão de pé um homem e uma mulher, ambos nus, sem armadura e sem ferramentas, de mãos vazias, o que compõe uma imagem de franqueza completa entre eles. A mulher olha para o anjo, o homem olha para a mulher, e esse pequeno desvio dos olhares carrega mais do que parece. Às suas costas há uma árvore com frutos e uma serpente enroscada no tronco, símbolo do conhecimento e da tentação. Atrás dele há uma árvore cujas folhas se parecem com pequenas línguas de fogo, imagem da paixão e do impulso. Entre ambos ergue-se ao longe uma montanha solitária. A terra é verde e aberta, sem cerca e sem vedação, e nada na paisagem separa uma figura da outra.
Duas árvores e uma montanha
Esta carta trabalha por pares, e dois deles carregam o sentido principal. A árvore do conhecimento às costas da mulher significa a compreensão e o seu preço invariável, ao passo que a árvore de chamas às costas do homem significa o desejo graças ao qual uma pessoa quer alguma coisa. As folhas da árvore de fogo são doze, pelo número dos signos zodiacais. Estes dois não se opõem entre si: são duas metades de uma mesma pessoa, e por isso crescem no mesmo prado. A montanha que os separa não pertence a nenhum dos lados e assinala uma tarefa comum. Ambas as figuras estão de pé ao mesmo nível, ou seja, aqui ninguém se encontra acima do outro. A nudez não constitui um pormenor sensual mas uma imagem da ausência de necessidade de esconder o que quer que seja. O anjo que os cobre ensina algo importante sobre a mecânica desta carta: a atração sozinha não basta para chegar ao fim, visto que é preciso além disso a clareza. A terra é verde e aberta, sem cerca alguma que separe uma figura da outra.

Antes de tudo uma carta de decisão
Apesar do seu nome, esta carta exige uma decisão. Costuma aparecer quando duas opções se excluem mutuamente e ambas prometem realmente algo bom. Precisamente por isso a lista de argumentos a favor e contra resulta inútil: não faltam argumentos, o que há é um equilíbrio completo entre eles. O assunto complica-se porque na situação não há nada de mau e ainda assim algo se perderá. Toda escolha aqui é ao mesmo tempo uma renúncia, e a recusa de a suportar não representa uma abstenção de decidir mas a manutenção de ambas as portas abertas. Esta carta emprega um critério distinto do das restantes cartas de escolha: não se procura a opção mais razoável mas a mais verdadeira. Inverter a pergunta simplifica tudo de uma vez: não contra o que se decide, mas a favor de quê. A resposta à segunda pergunta costuma chegar mais depressa e soar mais simples do que se esperava.
Deixar que decidam os valores
O anjo paira sobre a cena porque existe um nível superior à mera preferência, e a resposta encontra-se justamente aí. Convém nomear o que de facto importa, e uma parte considerável da contradição dissolve-se, já que de repente se vê qual das opções é apenas sedutora e qual encaixa com quem a escolhe. Os valores leem-se na agenda diária e nos extratos bancários com mais honestidade do que nas conversas sobre si próprio. Existe um exercício útil: anotar três valores e depois ordená-los. É precisamente a ordenação que produz desconforto, visto que nesse momento se manifesta a prioridade verdadeira. Convém verificar além disso se são convicções pessoais ou se foram herdadas dos pais, das amizades ou de uma profissão anterior. Os valores mudam com os anos, e por isso o exercício merece repetir-se de vez em quando; a diferença entre a lista de há cinco anos e a atual diz mais do que qualquer uma das duas listas em separado. Convém repetir o exercício de tempos a tempos por essa razão.
Tirar a armadura
Nenhuma das duas figuras leva sobre si o que quer que a proteja, e essa é a mais difícil das exigências da carta. O vínculo verdadeiro não surge da coincidência de opiniões mas do momento em que cessa a exibição da melhor versão de si próprio. Isto vale para o par, para as amizades mais próximas e para a relação consigo mesmo. As armaduras raramente são de metal: estão fabricadas de ironia, de ocupação permanente ou do hábito de falar de outros assim que a conversa se torna pessoal. Tirá-las acarreta um risco, e esse risco não se elimina com nenhum acordo prévio. O assunto aligeira-se falando da própria experiência em vez de falar do erro da outra parte. O momento e o interlocutor importam por igual, já que semelhante franqueza não pertence a qualquer situação nem a qualquer pessoa; o critério não é a profundidade do que se diz mas se regressa algo equivalente. As armaduras raramente são de metal e feitas antes de ironia ou de ocupação permanente.
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Opostos que precisam um do outro
Duas árvores, duas figuras, duas direções de olhar: esta carta exibe pares sem descanso. A razão e o sentimento, a segurança e a aventura, a proximidade e a autonomia não são inimigos mas dois lados de uma vida completa. Quem vive apenas com um deles estreita-se, e não importa qual tenha escolhido. A maior parte das pessoas entrega a metade abandonada a outra pessoa, e por isso o amor cai tantas vezes exatamente sobre o que falta. Durante um tempo isso funciona às mil maravilhas. Depois começam os desacordos em que cada parte defende o seu e ataca o alheio. Resolver essa tensão resulta impossível, visto que pertence à própria estrutura do assunto e só termina com a capitulação de um dos dois. A meta é um pêndulo e não um ponto médio congelado: um lado recebe mais peso durante um tempo, depois recebe-o o outro, e sustentar ambos ao mesmo tempo e por igual acaba em que nenhum funciona. A maior parte das pessoas entrega a metade abandonada a outra pessoa.
Dizê-lo antes de se tornar problema
Convém reparar em quão iluminada está esta carta: sol aberto, céu limpo e nem um único canto em sombra. As relações raramente duram por terem começado com paixão; duram porque ambas as partes sabem no que se meteram. As expectativas não ditas não se evaporam mas transformam-se mais tarde em censuras. O pior são precisamente as evidências, já que aquilo que a um parece evidente ao outro nunca ocorreu. As expectativas declaradas, os acordos claros e a disposição para levantar cedo os temas incómodos poupam uma quantidade considerável de trabalho. Essa conversa parece inoportuna ao princípio e ainda assim resulta bastante mais leve do que a mesma conversa depois de dois anos de ressentimento acumulado; ajuda anotar três expectativas até agora dadas por garantidas e pronunciá-las na semana seguinte. O pior são precisamente as evidências, já que o evidente para um nunca ocorreu ao outro.
Duas ofertas e duas noites
Um exemplo esclarece esta carta melhor do que qualquer interpretação. Uma pessoa recebe duas ofertas de trabalho. A primeira é bem paga, dá segurança e produz tédio já na leitura do anúncio. A segunda paga pior e coincide exatamente com o que essa pessoa vem chamando desejável para si. Ambas resultam inteiramente justificáveis, e por isso não ajuda nem uma lista nem um amigo, tanto mais que o meio se dividirá em dois campos segundo as decisões tomadas nas suas próprias vidas. O que funciona é o seguinte: passar uma tarde inteira partindo do princípio de que a primeira oferta já foi aceite, e depois anotar o que o corpo comunica. Na tarde seguinte o exercício repete-se com a segunda oferta. A resposta costuma resultar inesperadamente clara, visto que este caminho contorna por completo a disputa dos argumentos, e o mesmo procedimento serve para outras decisões deste género. O corpo responde antes dos argumentos e por isso a resposta chega mais depressa.






