Rainha de Copas: significado da carta de tarot

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A única que olha dentro da sua taça
Muitas figuras deste baralho seguram taças, e só ela olha o que tem entre as mãos. Está sentada num trono de pedra mesmo à beira do mar e segura uma taça dourada com ambas as mãos sem dela afastar os olhos. Essa taça não se parece com nenhuma outra: tem duas asas, uma tampa e a forma de uma construção pequena rematada por anjos. No trono há sereias e conchas talhadas, a seus pés repousam seixos de várias cores e a água chega até à base do assento. O seu vestido é branco, e o manto cai-lhe dos ombros de maneira que as suas pregas quase se confundem com a água de baixo. Está sentada com firmeza e a água a seus pés não a absorve. Na correspondência de elementos é água em água, ou seja, a forma mais pura deste naipe, e nada aqui equilibra o elemento nem lhe fixa limites de fora. Esses limites estabelece-os ela própria, e a tampa da taça é a sua imagem. Os seixos de várias cores veem-se através da superfície, ou seja, essa água resulta transparente. A água não sobe acima dela, ou seja, está dentro dela e não por baixo.
Uma taça com tampa
Essa taça constitui o objeto principal da carta. É a única fechada, ou seja, o seu conteúdo admite ser tapado e não está aberto a todos em todo o momento. Os anjos que a rematam indicam que o que há dentro lhe resulta sagrado. Segura-a com ambas as mãos sem a levantar nem a estender, e por isso este é um momento de retenção e não de entrega. As sereias do trono significam a capacidade de viver entre dois mundos, e ela está sentada exatamente na fronteira entre a terra e a água. Os seixos de várias cores veem-se através da superfície, ou seja, essa água resulta transparente e não turva. As pregas da sua roupa unem-se à água, de modo que entre ela e o seu sentimento não há tabique algum. A água não sobe acima dela, ou seja, está dentro dela e não por baixo. A rainha constitui na ordem das figuras a etapa em que o elemento se volta para dentro. Nas cartas numéricas aproxima-se-lhe o nove deste naipe, com a diferença de que ali o contentamento se exibe e aqui fica fechado sob tampa. As sereias do trono significam a capacidade de viver entre dois mundos.

Sentir sem se afogar
A capacidade que aqui se descreve raramente se nomeia com clareza: sentir fundo sem ficar arrastado. A maioria oscila entre dois extremos, ou seja, ou apaga o sentimento ou lhe entrega o comando, ao passo que o caminho intermédio exige exercício. O seu procedimento resulta bastante concreto. Primeiro nomeia-se o sentimento, visto que nomeá-lo reduz já de maneira notável a sua intensidade. Depois separa-se o sentimento da ação, já que o enfado não obriga a enviar essa carta. Depois concede-se-lhe tempo, visto que os estados mais intensos mudam passado um prazo. A água desta imagem está presente sem descanso e nunca ultrapassa o seu limite, e essa é a definição inteira da carta. Nomear o sentimento reduz já de maneira notável a sua intensidade. Depois separa-se o sentimento da ação, já que o enfado não obriga a enviar essa carta.
Receber os sentimentos alheios
Nenhuma carta do baralho resulta tão recetiva, e a sua mecânica tem uma razão. As pessoas falam-lhe de si próprias não porque ela dê bons conselhos mas porque não tem pressa de reparar. A maior parte de quem escuta prepara a sua resposta enquanto escuta, e a outra parte perceciona-o. Escutar de verdade consiste em deixar quem fala terminar, incluindo as partes desordenadas. Resulta útil repetir o ouvido com palavras próprias e depois perguntar do que essa pessoa precisa, em vez de propor uma solução. Com bastante frequência a única coisa que faz falta é ser escutado, e isso ocorre na realidade menos vezes do que o conselho. A maior parte de quem escuta prepara a sua resposta enquanto escuta. Repetir o ouvido com palavras próprias e perguntar depois do que faz falta funciona melhor do que propor soluções.
Os limites não são frieza
Convém esclarecer aqui alguma coisa, sobretudo para quem empatiza depressa. Receber os sentimentos de outros e carregá-los no seu lugar são coisas distintas. A primeira é acompanhamento e a segunda é substituição, e a segunda esgota quem a pratica. A tampa da sua taça é precisamente a imagem desse limite: abre-a quando quer e fecha-a quando quer, e a decisão pertence-lhe. Atende-se ao tangível: se uma pessoa sai desses encontros vazia ou cheia, se são sempre os mesmos a procurá-la, e se está a decidir pela vida de outros. Pôr limites não torna ninguém menos caloroso e constitui o único modo de conservar esse calor a longo prazo. O primeiro sinal de que um limite foi ultrapassado é o vazio posterior a esses encontros. Atende-se além disso a se são sempre os mesmos a procurá-la.
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Juízos que não se explicam
O vínculo desta figura com a intuição é mais estreito do que o de qualquer outra carta da corte. A sua primeira impressão sobre as pessoas e as situações costuma resultar acertada, e ela não é capaz de a fundamentar. Nada há de misterioso nisso, já que se trata de experiência comprimida: a memória reconhece um padrão e não mostra a comparação que empregou. Precisamente por isso resulta fiável em terrenos conhecidos e notavelmente mais fraca ali onde tudo é novo. A comprovação é tangível: as impressões anotam-se com data e releem-se meses depois para estabelecer até onde chega a sua fiabilidade. A intuição separa-se do medo, visto que uma das duas é silenciosa e a outra ruidosa. O que se propõe não é seguir a intuição sem a comprovar mas tratá-la como informação que exige confirmação. A intuição resulta fiável onde há experiência acumulada e fraca onde tudo é novo. As impressões anotam-se com data e releem-se meses depois.
O perigo da água em água
A forma mais pura deste naipe significa também a menor quantidade de contrapeso. Quando nenhum outro elemento se opõe ao sentimento aparecem desvios conhecidos: tomar uma sensação por uma prova, considerar algo errado apenas por resultar desagradável, e permanecer na empatia sem chegar a decidir. Aparece além disso uma condescendência contínua destinada a evitar o choque, que chega até à incapacidade de dizer o que se deseja. O remédio não consiste em passar ao raciocínio mas em acrescentar um pouco de estrutura: anotar o juízo, perguntar a alguém de outro temperamento, fixar um prazo para decidir. A profundidade precisa de forma, já que de outro modo se transforma em água sem margens. Acrescenta-se por isso um pouco de estrutura: um juízo anotado e um prazo fixado. Perguntar a alguém de outro temperamento completa esse remédio.
Quem se lhe parece na vida
Costuma assinalar-se uma mulher ou qualquer pessoa de temperamento semelhante: tranquila, que escuta bem, precisa a ler os sentimentos e diante da qual resulta fácil dizer a verdade. Em geral não oferece conselhos por iniciativa própria e lembra o que as pessoas lhe contaram. A quem tenha perto alguém assim convém notar que ela quase nunca fala das suas próprias necessidades, e por isso convém perguntar-lhe primeiro. A quem couber esta descrição convém saber que semelhante capacidade resulta rara e se esgota com facilidade. A lição que lhe falta refere-se a essa tampa: saber quando a fechar e não pedir desculpa por isso. A forma mais plena desta carta é uma profundidade que tem margens. Semelhante capacidade resulta rara e esgota-se se não for protegida. A quem tenha perto uma pessoa assim convém perguntar-lhe primeiro, já que ela quase nunca fala de si.






