Valete de Paus: significado da carta de tarot

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Os olhos não estão no caminho
Olhar para onde este jovem olha esclarece a carta inteira. Está de pé sozinho num deserto aberto, segura um pau comprido com ambas as mãos na vertical e olha não o seu caminho mas o que tem entre as mãos. A cabeça está algo lançada para trás e a expressão completamente absorta, como se acabasse de notar o que exatamente segura. Leva um casaco cor de laranja bordado com salamandras e no chapéu uma pena comprida e reta. Atrás dele, ao longe, erguem-se três pirâmides, e a terra sob os seus pés é areia onde nada cresce. Neste instante não vai a lado nenhum e nada o persegue. Aqui não há plano mas absorção, e isso é exatamente o que a carta descreve. Na correspondência de elementos é fogo em terra, ou seja, a primeira descida da energia ígnea a uma forma tangível, e por isso a sua concentração resulta ao mesmo tempo limpa e desajeitada. Nada nesta carta tem pressa, e nisso se distingue da seguinte. A terra sob os seus pés é areia onde nada cresce. As três pirâmides do fundo são conquistas construídas por outros há muitíssimo tempo.
A salamandra na areia
Todos os símbolos desta carta falam do fogo na sua forma mais pequena. A salamandra do casaco considerava-se antigamente uma criatura que vivia na chama sem se consumir, e por isso se transformou no sinal deste naipe. Um olhar atento descobre que muitas delas não fecham o círculo, e uma salamandra aberta significa na tradição uma possibilidade que ainda não amadureceu. A pena do chapéu remete para o Louco e assinala quem começa algo com um entusiasmo superior à sua experiência. O deserto que o rodeia não constitui um castigo mas uma folha em branco, visto que nele nada se semeou e tudo pode semear-se. As pirâmides do fundo são conquistas construídas por outros há muitíssimo tempo, visíveis e ainda alheias. O seu pau é mais comprido do que ele próprio, e isso significa que o projeto excede as suas capacidades atuais. O valete constitui na ordem das figuras a forma menor do elemento, e por isso carrega energia e não destreza, perguntas e não respostas. Nas cartas numéricas corresponde-lhe o ás deste naipe como possibilidade pura, ao passo que aqui essa possibilidade recai sobre uma pessoa concreta.

Alguma coisa captou a atenção
Um assunto captou a curiosidade, e esta carta exige levá-lo a sério. Pode tratar-se de um campo de conhecimento, de uma competência, de uma pessoa, de um lugar ou de um projeto que regressa ao pensamento sem motivo prático algum. O impulso será demonstrar primeiro a sua utilidade e só depois permitir-se ocupar-se dele, ao passo que a ordem correta é a inversa. Nesta etapa a pergunta não consiste em saber se é útil mas se resulta realmente interessante. A curiosidade é a matéria-prima de tudo o que uma pessoa acaba por dominar, e chega muito antes da capacidade. Inscreve-se num curso, compra-se a versão barata do equipamento, lê-se o primeiro livro, escreve-se a essa pessoa. Investigar algo sem saber aonde leva é aqui permitido, e nem toda faísca tem de se transformar em ofício. Convém olhar de que se fala sem que ninguém o pergunte e o que se lê sem motivo prático.
Aceitar começar de baixo
Ninguém nesta carta possui mestria, e isso não constitui um defeito do desenho. O valete é a figura menor do naipe, ou seja, aporta energia e não competência. A quem trabalha há anos no seu campo, esta carta propõe voltar a ser muito mau em alguma coisa. O desconforto resulta aqui de um género particular, visto que essa pessoa sabe que aspeto tem a mestria e o que acontece não se lhe parece. As primeiras semanas atravessam-se sem julgar o resultado, já que esse desconforto constitui uma etapa e não uma sentença sobre as capacidades. Os principiantes aprendem além disso mais depressa do que os peritos, visto que ainda não decidiram o que resulta impossível. É permitido formular em voz alta as perguntas óbvias, já que são precisamente elas as que costumam resultar mais úteis. O desconforto pertence à etapa e não às capacidades, e dissipa-se em poucas semanas.
Dizê-lo em voz alta
Esta carta é além disso um mensageiro, e neste naipe a mensagem resulta com mais frequência algo que se anuncia e não algo que se recebe. Convém contá-lo a uma pessoa, e a natureza do projeto muda de imediato, visto que deixa de ser uma fantasia privada e passa a ser um assunto existente. Convém observar o que se sente depois de o ter dito e até que ponto resulta claro o projeto quando é preciso explicá-lo. O primeiro ouvinte escolhe-se com cuidado, já que os projetos recém-nascidos são frágeis e uma única resposta desdenhosa basta para os deter. Procura-se quem faz perguntas e não quem emite juízos. Junto a isto, à volta desta carta esperam-se cartas, convites e propostas inesperadas, que chegam com mais frequência de pessoas mais jovens ou de menor antiguidade. O entusiasmo atrai oportunidades que os méritos não atraem.
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Não esperar por estar preparado
Esta carta não oferece nem plano, nem água, nem provisões, e está completamente conforme com isso. Nisso consiste precisamente a permissão que concede: para começar uma exploração não faz falta um plano completo. Esperar pela sensação de estar preparado significa em geral esperar que o interesse se apague, visto que o entusiasmo não é uma reserva infinitamente renovável. Convém começar pela versão mais pequena disponível: uma tarde, uma página, uma conversa. O deserto que o rodeia significa que ninguém observa a primeira tentativa, e essa ausência constitui um presente e não uma falta de apoio. Ao começo é permitido ser desajeitado e carecer por completo de apresentação, e a versão mínima vale porque permite julgar o projeto pela experiência e não pela imaginação. A imaginação sobrevaloriza o projeto na primeira semana e subvaloriza-o na terceira.
Sustentar o fogo depois da terceira semana
Esta figura carrega um perigo previsível, e conhecê-lo de antemão resulta extremamente útil. O valete é excelente a arrancar e célebre por não continuar, já que o entusiasmo que acende um assunto não o sustenta por si só. Esse padrão provavelmente já se viveu: uma onda de entusiasmo, três semanas intensas, depois silêncio e uma ligeira sensação de culpa. Isso não constitui um defeito de carácter mas o que faz o fogo sem combustível. Decide-se já agora o que o conservará quando a novidade desaparecer: um troço de tempo fixo na semana, uma pessoa que espere ver avanços ou um prazo pequeno que se anuncie. Convém notar que o valete segura o pau com firmeza e não o agita, visto que o contacto sustentado supera a força em todos os casos. O que faz falta não é mais seriedade mas um lugar onde essa faísca possa sustentar-se. Um troço de tempo fixo na semana funciona melhor do que qualquer promessa.
Este valete entre as pessoas
O retrato corresponde muitas vezes a alguém do meio: entusiasta, cheio de projetos, generoso com a sua energia, pouco fiável nos pormenores e realmente agradável de tratar. A cada poucos meses chega com um projeto novo e resulta sincero em cada palavra que pronuncia no instante de a pronunciar. Quem trabalha com alguém assim deixa-lhe os arranques e encarrega outro da continuação. A quem couber esta descrição provavelmente reconhecerá as suas duas metades e há tempo se promete corrigir a segunda. Existe além disso uma variante desta carta que amadurece sem arrefecer, e o seu caminho consiste em escolher menos assuntos e não em aumentar a disciplina, e essa persistência temperada resulta pouco frequente e vale mais do que qualquer um dos dois extremos. A seguir chega o cavaleiro, onde essa mesma energia se transforma em velocidade.






